Aos Amigos
São pequenas coisas, que nos ensinam muito. Num dia de verão, eu estava
na praia, espiando duas crianças na areia. Trabalhavam muito, construindo
um castelo de areia molhada, com torres, passarelas e passagens internas.
Quando estavam perto do final do projeto, veio uma onda e destruiu tudo,
reduzindo o castelo à um monte de areia e espuma. Achei que as crianças
cairiam no choro, depois de tanto esforço e cuidado, mas tive uma
surpresa: em vez de chorar, correram para a praia, fugindo da água, rindo,
de mãos dadas e começaram a construir outro castelo.
Compreendi que havia recebido uma importante lição: tudo em nossas
vidas, todas as coisas que gastam tanto de nosso tempo e de nossa energia
para construir, tudo é feito de areia; só o que permanece é o nosso
relacionamento com as outras pessoas.
Mais cedo ou mais tarde, a onda virá e irá desfazer o que levamos tanto
tempo para construir. Quando isso acontecer, somente aquele que tem as
mãos de alguém para segurar, será capaz de rir.
Falando com os Anjos
Existe uma história de simplicidade linda,
que gostaria de contar.
Um lenda, um acalento dito antes do sonho
tocar os olhos de qualquer pessoa.
Não sei se é verdade...
e não me importo com isso.
Não precisa ser!
Muito tempo atrás...
depois do mundo ser criado
e da vida completá-lo.
Houve num dia,
numa tarde de céu azul e calor ameno.
Um encontro entre Deus
e um de seus incontáveis anjos.
Acredita?
Deus estava sentado, calado,
sob a sombra de um pé de jabuticaba.
Lentamente sem pecado,
Deus erguia suas mãos,
então colhia uma ou outra fruta....
Saboreava sua criação negra e adocicada.
Fechava os olhos e pensava...
Permitia-se um sorriso piedoso.
Mantinha seu olhar complacente.
Foi então que, das nuvens,
um de seus muitos arcanjos desceu
e veio em sua direção...
Já ouviu a voz de um anjo?
É como o sussurro da brisa...
Ele tinha asas lindas... brancas, imaculadas.
Ajoelhou-se aos pés de Deus e falou:
– Senhor... visitei sua criação como pediu.
Fui a todos os cantos.
Estive no sul, no norte, no leste e oeste.
Vi e fiz parte de todas as coisas...
Observei cada uma de suas crianças humanas.
E por ter visto vim até o senhor...
para tentar entender.
Por que?
Por que cada uma das pessoas sobre a terra
tem apenas uma asa?
Nós, anjos, temos duas...
Podemos ir até o amor que o senhor representa
sempre que desejarmos.
Podemos voar para a liberdade
sempre que quisermos.
Mas o humano, com sua única asa, não pode voar.
Não podem voar com apenas uma asa..."
Deus na brandura dos gestos,
respondeu pacientemente ao seu anjo:
"Sim... eu sei disso.
Sei que fiz os humanos com apenas uma asa..."
Intrigado, com a consciência absoluta de seu senhor,
o anjo queria entender e perguntou:
"Mas por que o senhor deu aos homens apenas uma asa quando são necessárias duas asas para poder voar...
para poder ser livre?"
Conhecedor que era de todas as respostas,
Deus não teve pressa para falar...
Comeu outra jabuticaba, obscura e suave
e então respondeu...
"Eles podem voar, sim, meu anjo.
Dei aos humanos apenas uma asa
para que eles pudessem voar mais e melhor que Eu
ou vocês, meus arcanjos....
Para voar, meu amigo,
você precisa de suas duas asas...
Embora livre, sempre estará sozinho.
Talvez da mesma maneira que Eu...
Mas os humanos...
Os humanos com sua única asa
precisarão sempre dar as mãos para alguém
a fim de terem suas duas asas.
Cada um deles tem, na verdade,
um par de asas...
uma outra asa, em algum lugar do mundo,
que completa o par.
Assim eles aprenderão a respeitarem-se,
pois ao quebrar a única asa de outra pessoa
podem estar acabando
com as suas próprias chances de voar.
Assim meu anjo, eles aprenderão a amar verdadeiramente outra pessoa...
aprenderão que somente permitindo-se amar,
eles poderão voar.
Tocando a mão de outra pessoa,
em um abraço correto e afetuoso,
eles poderão encontrar a asa que lhes falta...
e poderão finalmente voar.
Somente através do amor irão chegar até onde estou... assim como você meu anjo.
E eles nunca... nunca estarão sozinhos
quando forem voar."
Deus silenciou em seu sorriso...
O anjo compreendeu o que não precisava ser dito.
E assim sendo, no fim desse conto,
espero que um dia você encontre a sua outra asa.
Para finalmente poder voar.
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